Matar ou morrer

Hoje, dia 5 de maio de 2007, me vi sentado na poltrona da sala, meu irmão e minha mãe ao meu lado, no sofá, e meu pai, na poltrona do outro lado da sala, assistindo um programa no NatGeo, que, na hora, estava transmitindo uma reportagem sobre o seqüestro intitulado “O ônibus 147”, que aconteceu no Rio de Janeiro, dia 12 de junho de 2001. O programa exibido mostrou toda a história do sequestrador, apelidado “Mancha”, que entrou no ônibus e fez reféns dentro dele, por algum motivo que desconheço.

Tentarei ao máximo omitir aqui minhas opiniões sobre todos os fatos que transcreverei. Sobre a cidade do Rio de Janeiro, sobre sequestradores, o Brasil e tudo o que envolve isso. Sei que será meio impossível de se ver isso, porque sou muito imbecil, e deixo, as vezes, meus sentimentos tomarem conta de mim, e falo mais do que devo. E na maioria das vezes: ouço o que não quero, conseqüentemente. Só antes de continuar, quero deixar bem claro que: sou sim bem preconceituoso com muitas coisas, e sou sim anti-patriota. Não vejo sentido em ser patriota quando se nasce em um país que deixa esse tipo de fato acontecer com freqüência.

Enquanto assistia não parei de pensar um minuto no “porque não mataram esse cara logo?”. E isso foi uma coisa que só piorava ao longo da atração, já que só se via tudo indo abaixo com o tempo, e como o cara se transformou naquilo que passava, e que hoje está, graças a Deus, bem morto. Primeiro que todo bandido, ladrão, traficante e a raspa do taxo da sociedade brasileira vira o que vira por causa de algum “trauma”. Como um moleque sai de casa porque brigou com o pai, dorme na rua e rouba pra sobreviver. Isso é o que ele passou na infantilidade de sua vida. Mas porque ele não tentou reconciliar as coisas com o pai? Porque que ele achou no “roubar”, a melhor saída pra vida?

Peguei o programa em andamento, foi quando comecei a ver assim: ele e mais um grupo – bem grande – de meninos de rua dormiam debaixo da marquise de um monumento do Rio. Não sei especificar qual que é pois não sou carioca, e isso é bem irrelevante no contexto, então acabe assim. Todos sempre dormiam com medo, pois como uma entrevistada fala: “Eles tinham medo de enquanto dormia, eles recebesse uma pedrada na cabeça dos cara que passavam e num gostavam. Enquanto durmia eles soltava uma pedrada só na cabeça e us miolo ia pra tudo lado.”. Não contemos quantos erros de português tem na frase. Mas dou completa razão pra quem fazia isso. Melhor um assaltante morto quando criança, do que um chefe de quadrilha vivo quando adulto. A segunda opção tem muito mais poder.

Segundo amigos dele, alguns melhores e que mostram a cara pra bater, alguns piores, traficantes, chefes de quadrilha e muito provavelmente também, assassinos, aparece todo coberto em meias na cabeça e blusas: ele foi traumatizado diante de um massacre na marquise que ocorrera em uma das noites. Uns policiais que teriam afirmado antes que voltariam para matá-los, cumpriram sua palavra (ao contrário do governo, de um modo geral), e fizeram uma chacina ali na frente. Trinta e tantos mortos, alguns feridos, Mancha sobreviveu dali. Esse foi o grande trauma pra ele? Ele saiu vivo. De graças a Deus seu animal. Trauma é ter que andar na rua sabendo que a cada passo que você dá, pode ter uma arma apontada na sua cabeça, sua vida em um agulha, e um meliante, que seria melhor morto, pedindo sua carteira e tudo o que ele tem direito.

Foi crescendo, e foi piorando. Claro, todos pioramos enquanto crescemos, e isso é evidente. Mas não vem ao caso. Ele foi se drogando, roubando mais, se drogando mais. Se afundando muito mais. Foi preso no mínimo umas 21 vezes só no que assisti dali. Outra questão bem intrigante: como uma cadeia de um país não consegue manter essas ameaças para a sociedade? Eles são presos, condenados a mais de 21 anos de prisão, e não passam sequer algumas noites lá, e já conseguem fugir. Só no Brasil que acontece uma coisa dessas, e é fato. Enfim: isso se reflete só no que acontece bem depois desses fatos do passado.

Agora: um cara que é preso, foge, é preso denovo, foge denovo… Só piora quando fica nesse ciclo interminável. E vai piorando. Vai cheirando cola, pó até o nariz não aguentar mais. O ato principal foi tão inexplicável, mas tão inexplicável, que nem o amiguinho traficante do meliante conseguiu explicar: “Ele divia é tá doidão quando ele fez aquilo lá. Entrá num ônibus pra rôba, vai consegui o que? Milzinho e vai fazer o que? Num tem nada disso. Nóis num roba pra ganha mil não. Nóis roba playboy pra consegui uma grana decente tá ligado? Nós num faz isso não. É muito pouco.”. Ele fez.

Pulando pequenas, irrelevantes, coisas que só explicaram ele e o que fazia, vamos para o acontecimento. Alias, antes, só vou falar uma coisa que me chamou muita atenção. O traficante, todo coberto, falando: “O que que a gente faz? A gente bota fogo. Sem dó. Dó? O que é isso? Ter dó pra que? Aquela velhinha que puseram fogo sei lá quando ae, tudo cria minha. Nós ensinamos isso. Num témo dó não. Na nossa mão pega tudo fogo. Vira cinza. Vira é pó.”. Quando ouvi isso, um sentimento inexplicável tomou conta da minha cabeça e do meu corpo. Me deu vontade de ser presidente do Brasil, entrar na cadeia, e matar um por um. Melhor, fazer eles sofrerem. Eu poria fogo em cada um deles, de todas as prisões. Cada um. Em todas as cadeias. E depois fazer uma chacina nos becos das favelas nos morros de todas as cidades. Dó pra quê? Dó é pros fracos.

O acontecimento do ônibus. A coisa inexplicável. Tão inexplicável, que não satisfeita só com o ato do sequestrador, isso se espalhou pra fora do ônibus também. Cercado por carros de polícia, bombeiros, policiais, transeuntes curiosos, atiradores especiais e de elite. Ele estava dentro do ônibus, com uma mulher agarrada nele como suposto escudo, e deu chances inúmeras vezes. Porque não o mataram? Ele pois a cabeça para fora da janela várias vezes, o braço pra fora da janela várias vezes, a visibilidade do ônibus estava perfeita. Todos tinham tudo para matá-lo. Direitos sociais não existem quando estamos falando de pessoas desse calibre. É matar ou matar.

Mas não. Eles preferem esperar. Sem qualquer equipamento de comunicação entre eles ali, eles se comunicam por sinais. Coisa mais primitiva, impossível. Parece que uma ligação impede um atirador de elite, sniper, de matar Mancha. Falaram na matéria que, até hoje, o autor da ligação é desconhecido. Só se sabe que é um dos ministros do Rio, ou alguma coisa parecida. Ha… Queria ver se fosse ele que tivesse nos braços daquele sequestrador. Se ele teria gostado. Primeiro que se ele tivesse ali no lugar, ele estaria morto hoje. Mas enfim. Morto por tiro amigo. Morto devido à falta de preparo de um esquadrão dito de “elite”, e da incapacidade e medo dos cabeças desse país, de enfrentar isso. Mas não foi ele que foi morto. Foi uma inocente. Muito provavelmente uma cidadã digna da vida que tinha, e que estava no ônibus, voltando para o único lugar que ela pode se sentir segura. Mas como foi ela, ele estava pouco se fodendo mesmo.

Mancha e a refém-escudo saem do ônibus. Na tentativa de neutralizar o escroto, tiro é disparado por um policial. A refém morta. O sequestrador preso e morto mais pra frente.

Qual é o motivo de roubar? É só querer que você consegue se salvar. Só querer, mas ninguém quer. Como que um país permite uma coisa dessas? Você anda na rua com tanto medo. Mas você nem percebe. Já esta tão acostumado. Cadê a segurança que as cadeias deveriam nos dar? Esta nas mãos de policiais corruptos. Cadê a inteligência do país? Na cabeça de um analfabeto metalúrgico e outras milhões de pessoas inúteis. O Brasil é um país? É mais tratado como um cachorro. Um cachorro de dois donos.

Por indignação eu nem sei como terminar esse texto. Me perdoem. Mas quando eu vejo coisas assim eu fico sem reação. Tirem conclusões por si mesmos. A minha vocês já viram.

“Ordem e Progresso”. Isso não existe mais. Nunca existiu.

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