Arquivo para junho \26\UTC 2009

Aeroportos

Hoje eu fui no aeroporto. Não é um lugar que costumo ir com frequência. Longe disso até, infelizmente. Mas ocorreu a oportunidade. Fui deixar uma pessoa querida que vai passar 40 dias longe. Bem longe. Não sei… Foi uma experiência interessante. Eu só peguei avião umas 2 vezes na vida, então o ambiente não me é muito familiar, assim como todos os sentimentos que decorreram ao longo de tempo que estive lá. Afinal: fui para viajar das outras vezes, e deixar pessoas, ver a pessoa que você ama andando embora, foi uma coisa nova. Aviões, cara. São coisas grandes.

Tava muito cedo quando eu acordei. Na verdade eu nem consegui dormir direito: não conseguia engolir o fato de, bem nas férias, não ficar ao lado dela. Dormi ao lado dela nessa última noite, ao menos. “Dormi”, novamente, como falei. Eu fiquei preocupado. Definhando de medo na cama ao lado, no chão. A mala quase pronta no lado oposto ao meu, aberta, para os últimos itens tomarem seus respectivos lugares e enfim cruzarem fronteiras. O despertador preparado para soar às 4:20h. Eram 3 quando cochilei. Ouvi o alarme quase como uma sirene de sentença de morte, e só me expressei quando disse “Merda…” antes de levantar.

Ela foi se arrumar. Eu dormi pronto. Pronto porque não conseguiria me preparar especificamente para essa ocasião. Pronto. Dormindo de calça jeans e blusa. Por pouco durmo até de lente para ter apenas que levantar e agonizar até o aeroporto.

Estava frio. Mais frio que o normal. Eram 4:20h da manhã, afinal. Mas não só isso, eu acredito que dias tristes são frios por natureza. Não que seja triste ela viajar. É legal. Uma coisa que ela quer há muito tempo. Mas é triste, ainda assim. Eu fico feliz, mas é uma felicidade naturalmente triste, se consigo inventar essa expressão. Algo bonito, pensando comigo agora, acho. E além de frio, uma chuva surpresa acompanhava nossa manhã. Essa não tinha mesmo sido convidada.

Após a última inspeção de itens da mala, cerificando-se de não esquecer nada (mas sempre esquecendo alguma coisa, lembrada momentos depois, no carro [claro]), e após um breve café da manhã, creio que tenha chegado a hora da partida. Um pouco da chuva respinga no cabelo dos 4 acordados naquele carro aquela manhã. O caminho foi longo e silencioso. Com algumas falas, alguns presentes (surpresas), algumas lágrimas, e muitos pingos. Muitos pingos. A chuva havia aumentado. Em quantidade e força. Não havia trânsito. Haviam muitos caminhões e espelhos embaçados, assim como as faixas da rodovia e as setas piscantes do carros. Uma longa estrada se passa.

O aeroporto estava vazio. Ele não dorme, mas tem seus altos e baixos durante as horas. E àquela hora estava bem vazio. Os guichês de check-in estavam abrindo, as filas começavam a se formar, e ao decorrer do tempo, do pouco tempo, aquele espaço já ia se enchendo. Nos posicionamos na fila, e conversamos para passar o tempo, assim como observamos quem nos rodeava. Acho que a partir daqui, comecei a ver graça em tudo. Cheguei a discordar de você, Figo, sobre aeroportos serem lugares tristes. Acabei concluindo com o cômico.

A mala estava bem pesada, e parecia que uma das rodinhas que auxiliava seu manejo não estava cumprindo bem a sua tarefa. Após algumas vistorias (com o pé, devo ressaltar), arranquei acidentalmente a que já estava se despedaçando em seu posto. Desculpa Raquel, mas eu não quebrei sua mala. Ela até melhorou depois disso. Estava mancando, mas estava andando, ao menos (o que não era possível). A fila andou. Papéis apareceram nas nossas mãos para preenchimento em propósito do vôo, e assinalamos que, com certeza, estaríamos levando doenças infecciosas, bactérias e CARAMUJOS para o destino. Acho que todos os presentes na fila assinalaram o mesmo.

As primeiras pessoas de máscaras começaram a aparecer, assim como, logo em seguida, o assunto da gripe suína também. Acho que chegou a hora de comprar a minha máscara de gás. Venho alimentando esse desejo por máscaras de gás há muito tempo. Não vejo hora melhor para adquirir a minha. Cheguei a ouvir até um início de preconceito contra argentinos e chilenos ao meu lado. Resmungos de “…esses desgraçados…”. Não entraria numa discussão ali, nem àquela hora. Tinha muitas outras coisas a me preocupar.

“Senhora”, exclamava a atendente do check-in para nos dirigirmos ao seu guichê. E essa foi a expressão chave do dia. “Senhora”. Por algum motivo essa expressão me incomodava bastante. Acho errado o uso de “senhora” no contexto em que estava sendo utilizado. A atendente continuo com seus “senhoras” e sua vistoria dos documentos necessários para o embarque, enquanto eu colocava aquela mala para a pesagem. O visor indicou 32 quilos, e minha cabeça me indicou que eu estava louco em todas as tentativas (ao menos com êxito, todas) que fiz de levantá-la. E brinquei com mais umas 100 gramas, pressionando e soltando meu dedo em cima da mala. “Para!” Tabóm, mãe, tabóm… Eu sei que não é pra brincar nessas horas. “Tenha uma boa viagem, Senhora.”

Dali passeamos um pouco pelo aeroporto. Sentamos para beber algo, reclamamos dos preços e do aumento de pessoas com máscaras. Rimos do dinheiro, do estacionamento. Andamos mais um pouco até o banco. Continuamos rindo, agora do cachorro dentro do carrinho de uma moça. Peruona, coitada. Daquelas gordas, ricas. Ela acariciava tão forte o pequeno coitado do cachorro que dava vontade de esmurrá-la contra o caixa eletrônico que usava. E sem sucesso no banco, andamos mais, descemos. “Eu poderia morar no aeroporto.”

Sentamos novamente para beber algo, em outro lugar. Mas a esperança de encontrar preços diferentes foi logo abatida. Parece que o capuccino e a Coca-Cola do aeroporto são tabelados. As pessoas perderam a noção de competição quando tabelaram preços. Cansados de pouco andar, sentamos. Bebemos. Conversamos. Um choro entalado na minha garganta pedia pra sair, mas ele iria sair mais tarde. Salvei algumas lágrimas de começo, ao menos. “Você é muito chorão, Vitor.” Isso eu mesmo me afirmei.

Um de nós nos deixou. Precisava trabalhar. Recusei a carona, e ficamos em 3 até a hora do vôo. O embarque abriria em poucos minutos. Usamos esses minutos acompanhando-a em um cigarro, cantando, ainda comentando sobre as pessoas. Sentados trocando músicas por Bluetooth. No banheiro. Fim dos minutos.

Sabia que eram os últimos metros com ela. Ando rápido, mas nunca quis andar tão devagar quanto quis andar esses últimos metros. Queria segurá-la e não soltar mais. Nem que fosse pra ficar 40 dias sentados naquele lugar de um último beijo, e não soltar mais. Abraçar com toda a força, sabe? As lágrimas já não eram evitadas. Não por mim. Já estava encharcado. “Não chora, se não eu choro também.” Mentira. “É. Eu me seguro e choro no avião.” Sabia. “Vai passar rápido.”

Um último beijo, um último abraço. Não foi o último choro. A já pequena camisa xadrez e o já pequeno chapéu ficam ainda menores com a distância. Viro e ando alguns metros. Retorno a olhar. E foram os últimos 2 segundos que a vi. No frio, e acompanhado apenas de uma pessoa agora, saímos do aeroporto. A chuva aumentou no céu cinza. O dia triste estava completo em todos os sentidos. O aeroporto não estava mais cômico. As piadas não mais existiam.

Aeroportos são lugares muito tristes. Volto no que disse.

“Como será que vão ser esses dias sem ela?”

Ao menos de começo, tristes.


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